quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Do vazio da existência...

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Para ler ouvindo “asleep – the smiths”

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Pessoas dizem que é preciso ter muita coragem para se matar, mas que coragem mesmo é preciso para continuar vivendo...

Mas o que é, de fato, viver?

Pra mim, viver é ou era estar completamente sozinho... E aí concordo que realmente é difícil e exige muita coragem. Mas ser obrigado a continuar sozinho não é um ato de coragem, é algo cruel, e externamente egoísta. Com externamente quero dizer que é egoísta da parte das outras pessoas exigirem que continuemos sozinhos... Só porque elas conseguem.

Viver significa incompreensão... Incompreensão do que seja a vida, incompreensão de nós mesmos para conosco; dos outros para conosco e o inverso.

Solidão e incompreensibilidade, esses são os dois maiores significados da vida.

Por que se adaptar a essa condição, então?

Por que continuar nessa luta sem prêmio, nadando contra a imensa maré que é o Nada?

Tenho pensado e repensado, buscado significar e resignificar a existência. Mas nada além de absurdo se coloca mais claro pra mim...

E os motivos pra persistir existindo e resistindo já não parecem tão óbvios, muito menos convincentes.

Enquanto Solidão e Incompreensão ecoam fortes na consciência...


(...)


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Blowing in the wind...



Eu queria saber colocar vídeo do youtube aqui no blog; iria colocar uma música que tenho escutando bastante, muito linda: Blowing in the wind, do Bob Dylan.
Faço uma sequência de Wish you were here, do Pink Floyd, depois escuto Blowing...
As duas me provocam sensações muito interligadas...
Acabei de pensar numa analogia maluca das duas músicas com o livro "Morangos Mofados", do Caio F.
Nessa analogia wish you were here representa "O mofo", a sensação de amargura, do gosto azedo perante a falência de ideais, ruína de representações, o vermelho vivo "moranguístico" está mofado... "Fizeram você trocar seus heróis por fantasmas"...
E essa coisa de 'almas perdidas nadando em um aquário. Ano após ano correndo sob o mesmo velho chão para encontrar os mesmos velhos medos'...
E o que se deseja que estivesse aqui é o sentido, o velho sonho que parece ir cada vez mais distante...
E nos vemos diante de uma falta/falha de causa. O que nos resta, o que sobra desse azedume?
Em blowing in the wind vemos "Morangos". É como se a busca ressurgisse (morangos mofados, mais ainda morangos); abre-se as janelas da alma que se via em estado terminal, agora sob uma nova perspectiva.
E as "respostas que estão no ar" são como o plantar de novos morangos...


Esse post tomou um rumo inesperado. Minha intenção primeira era postar a letra de blowing in the wind, que aí está:


Blowing In The Wind
Composição: Bob Dylan

How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?
Yes and how many times must cannonballs fly,
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Yes and how many years can a mountain exist,
Before it's washed to the seas (sea)
Yes and how many years can some people exist,
Before they're allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head,
Pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

Yes and how many times must a man look up,
Before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have,
Before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind...

"A resposta está soprando no vento..."
Quanto tempo precisaremos olhar para cima até conseguir enxergar o céu?
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sábado, 14 de novembro de 2009

Roda mundo, roda gigante... Roda viva!

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Uma música que tenho escutado bastante é "Roda Viva", do Chico Buarque.
É incrível a profundidade dessa música, o seu significado.
Além de ter toda uma contextualização específica no período da ditadura, é claro que pode ser trazida à análise existencial de forma atemporal.
Eu vejo como um empurrão pra essa coisa de "o tempo não pára" e da mudança constante da vida, essa drenagem que não pára nunca e que não depende da nossa força.
Embora em alguns momentos estejamos "indo contra a corrente", chega a Roda Viva e nos faz encarar a metamorfose indiferente à nossa vontade particular e nossa falta de poder diante do que é maior, do sublime que é a vida; esmagadora das "roseiras" de ilusões que criamos.
Queria colocar o vídeo aqui, mas como não sei fazer isso, vou transcrever a letra:

Roda Viva
(Chico Buarque)

Tem dias que a gente se senteComo quem partiu ou morreu
A gente estancou de repenteOu foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
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sábado, 7 de novembro de 2009

"Crescer" é doloroso...

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“ 'A vida tem um sentido que os adultos conhecem' é a mentira universal em que todo mundo é obrigado a acreditar. Quando, na idade adulta, compreende-se que é mentira, é tarde demais."
(Muriel Barbery)

Vi essa citação no blog da Carol Teixeira, e influenciada pela minha fase de angústia quanto a tornar-me adulta, fiquei pensando nesse processo...
Se tornar adulto é uma das maiores perdas da vida.
Perde-se a inocência, aquele descompromisso da infância; o brilho apaixonado da adolescência, os sonhos malucos e aquela leve sensação de que se pode tudo. Passa-se a ter que fazer as coisas com seriedade, encarar responsabilidades e ainda ostentar auto-controle (ou do contrário ser taxado de louco)...
É como se na verdade não estivéssemos crescendo (e por isso o crescer entre áspas no título) e sim diminuindo, enquanto nos tornamos adultos.
MacIntyre diz que o momento em que nos tornamos raciocinadores independentes é quando nos distanciamos dos desejos primitivos, da 'ordem 'instintiva infantil que nos coloca no mesmo patamar dos outros animais. Fala da importância de nos distanciarmos do modo de vida instintivo pra ponderarmos as vontades e dessa forma ser possível viver em sociedade.
Mas até onde esse lado instintivo deve ser distanciado? Qual a graça em ser tão racional?
Por outro lado, lembro também de Nietzsche no que fala sobre a morte do lado dionisíaco como negação da vida.
Aprisionamos nosso lado Dionisíaco quanto mais ficamos velhos. Negamos a vida em prol de uma sociedade mascarada.
A lapidação dos elementos infantis vai nos tornando secos, diria até falsos. Porque vamos substituindo esses elementos por orgulho e falsas construções sobre crescer de verdade, que nada tem a ver com ficar mais velho.
Mágoas se acumulam, intrigas duram mais tempo... Verdades se ocultam.
Na infância, quando dois coleguinhas brigam, falam coisas sem o filtro "ético", insultam a família um do outro e fazem juras de inimizade eterna... No dia seguinte já estão brincando juntos e se dizendo melhores amigos.
Na adolescência o jovem amante faz serenata; casais fogem de casa por uma semana; escrevem cartas...
Ao envelhecermos, deixamos pra trás essa espontâneidade.
O pior é que o sentimento de infância está se perdendo com o tempo, as crianças são cada vez mais pressionadas a tomarem atitudes de "gente grande"...
Só não perdemos da infância os medos; e isso nos causa um grande desequilíbrio.
Os medos continuam pulsando, e nós os repreendemos, implodindo.
Não corremos mais pra mãe quando temos pesadelo; não choramos mais em público; não temos tanta coragem de pedir desculpa aos amigos cinco minutos depois de uma briga; vamos parando de procurar formas nas nuvens. E os casais ficam cansados demais do trabalho para conversar sobre seus sonhos malucos pro futuro, ou sobre a vontade de fazer algo considerado infantil.
Vamos colocando máscaras feitas de medo, mas pintadas de orgulho.
E nos tornamos tristes, a falta de sentido do mundo se torna bem mais dolorosa quando não se tem a fantasia. Como diz a personagem Clementine no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças :
"os adultos são esa mistura de tristezas e fobias".
Precisa-se - e com urgência - resgatar as essencialidades da infância; externalizar os medos; falar dos sonhos; buscar realizações...
tornar-nos quem somos!
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sobre os laços...

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Sim, os laços que criamos com as pessoas, eles se rompem...
Às vezes de forma natural, às vezes eles são cortados.
Alguns deterioram-se com o tempo, outros caem rapidamente por não serem necessários...
Ou quando pessoas vão embora, os laços não são suficientemente fortes para permanecer.
E esse ir embora nem sempre é geográfico...
Algumas tesouras surgem de lugares inesperados para cortar os laços; afinal, dizem que a vida é uma caixinha de surpresas. Pois eu digo que é uma caixinha adornada com laços...
Outras tesouras surgem de dentro de nós ou de dentro de quem julgávamos conhecer... Pois as surpresas nem sempre são agradáveis.
Cortes de laços geram mudanças... São pequenos grandes cortes na alma, que precisa aos poucos ser reajustada.
Mudanças são necessárias, mudanças geram mudanças...
Algumas "más" geram "boas", e outras supostamente boas geram más.
E assim vão se criando ciclos e mais ciclos de mudanças, assim o mundo funciona, assim o mundo gira.
O fato é, os laços sempre serão rompidos, o modo como você reajusta o que ficou é o que vai contar no final.
Abrir a caixa, limpá-la muito bem... Puxar o grande laço que nos liga à vida, o mais importante.
Depois... Rearrumar velhos laços, criar novos, guardar alguns...
Reajuste, eis o grande trabalho a ser feito!
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"A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda."
(F. Nietzsche)
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sobre o fim, a "morte do talvez" e a dor de algumas certezas...

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Gostaria de retomar um pouco a temática do último post... O Talvez... Ou a incerteza.
Os ‘Talvezes’ da vida incomodam a muitos, não ter uma certeza pra se apoiar pode afligir, doer, inquietar...
A maioria das pessoas prefere estar sempre pisando no terreno da certeza, ou da ilusão de que há de fato alguma certeza... Se sentem seguras, sem o que temer; mesmo que o fato que encaram como verdade não lhes seja tão agradável.
Parece que já saber que as coisas não são como desejamos torna mais fácil de superar, de seguir...
Já em outras circunstâncias, e em especial na que eu me encontrava quando fiz o último post, encara-se o talvez com tanta alegria, euforia, pulsão de vida... Abertura para o todo!
Assim eu o fiz...
Senti que podia brincar com o nada, sonhar com o SIM, recusar entregar-me ao NÃO.
O talvez carregava toda uma magia que me fazia sentir viva e enxergar as infinitas possibilidades para o que viria...
O sonho com um SIM era mais forte do que a própria ânsia de ter uma resposta ao enigma do talvez.
Pode-se dizer que é imaturidade gostar de viver no talvez; que é medo de encarar uma definição, uma resposta que venha a doer mais do que a dor de esperar.
Fraqueza de ter que enfrentar “a verdade”.
Pois lhes digo, não há dor maior que a do fim; a morte da expectativa, da possibilidade.
O fechamento do que outrora foi abertura para o todo...
Você é simplesmente trancado no calabouço de uma certeza fria, sem poder ver a luz do Sol. Sem a mínima previsão de saída...
Algumas respostas, certezas de um fim tão triste doem tanto...
Palavras duras te ferem a alma... Não há curativos para dores assim.
É nesses momentos que você deseja tão penosamente retornar à incerteza, ao talvez, à toda a euforia que é esperar...

Há coisa mais triste do que não ter mais o que esperar?
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Talvez[es]...


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"Talvez um voltasse, talvez o outro fosse. Talvez um viajasse, talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas, telefonemas noturnos, dominicais, cristais e contas por sedex (...) talvez ficassem curados, ao mesmo tempo ou não. Talvez algum partisse, outro ficasse. Talvez um perdesse peso, o outro ficasse cego. Talvez não se vissem nunca mais, com olhos daqui pelo menos, talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem juntos para Paris (...) talvez um se matasse, o outro negativasse. Seqüestrados por um OVNI, mortos por bala perdida, quem sabe. Talvez tudo, talvez nada..."
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(Caio Fernando Abreu)
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