sábado, 7 de novembro de 2009

"Crescer" é doloroso...

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“ 'A vida tem um sentido que os adultos conhecem' é a mentira universal em que todo mundo é obrigado a acreditar. Quando, na idade adulta, compreende-se que é mentira, é tarde demais."
(Muriel Barbery)

Vi essa citação no blog da Carol Teixeira, e influenciada pela minha fase de angústia quanto a tornar-me adulta, fiquei pensando nesse processo...
Se tornar adulto é uma das maiores perdas da vida.
Perde-se a inocência, aquele descompromisso da infância; o brilho apaixonado da adolescência, os sonhos malucos e aquela leve sensação de que se pode tudo. Passa-se a ter que fazer as coisas com seriedade, encarar responsabilidades e ainda ostentar auto-controle (ou do contrário ser taxado de louco)...
É como se na verdade não estivéssemos crescendo (e por isso o crescer entre áspas no título) e sim diminuindo, enquanto nos tornamos adultos.
MacIntyre diz que o momento em que nos tornamos raciocinadores independentes é quando nos distanciamos dos desejos primitivos, da 'ordem 'instintiva infantil que nos coloca no mesmo patamar dos outros animais. Fala da importância de nos distanciarmos do modo de vida instintivo pra ponderarmos as vontades e dessa forma ser possível viver em sociedade.
Mas até onde esse lado instintivo deve ser distanciado? Qual a graça em ser tão racional?
Por outro lado, lembro também de Nietzsche no que fala sobre a morte do lado dionisíaco como negação da vida.
Aprisionamos nosso lado Dionisíaco quanto mais ficamos velhos. Negamos a vida em prol de uma sociedade mascarada.
A lapidação dos elementos infantis vai nos tornando secos, diria até falsos. Porque vamos substituindo esses elementos por orgulho e falsas construções sobre crescer de verdade, que nada tem a ver com ficar mais velho.
Mágoas se acumulam, intrigas duram mais tempo... Verdades se ocultam.
Na infância, quando dois coleguinhas brigam, falam coisas sem o filtro "ético", insultam a família um do outro e fazem juras de inimizade eterna... No dia seguinte já estão brincando juntos e se dizendo melhores amigos.
Na adolescência o jovem amante faz serenata; casais fogem de casa por uma semana; escrevem cartas...
Ao envelhecermos, deixamos pra trás essa espontâneidade.
O pior é que o sentimento de infância está se perdendo com o tempo, as crianças são cada vez mais pressionadas a tomarem atitudes de "gente grande"...
Só não perdemos da infância os medos; e isso nos causa um grande desequilíbrio.
Os medos continuam pulsando, e nós os repreendemos, implodindo.
Não corremos mais pra mãe quando temos pesadelo; não choramos mais em público; não temos tanta coragem de pedir desculpa aos amigos cinco minutos depois de uma briga; vamos parando de procurar formas nas nuvens. E os casais ficam cansados demais do trabalho para conversar sobre seus sonhos malucos pro futuro, ou sobre a vontade de fazer algo considerado infantil.
Vamos colocando máscaras feitas de medo, mas pintadas de orgulho.
E nos tornamos tristes, a falta de sentido do mundo se torna bem mais dolorosa quando não se tem a fantasia. Como diz a personagem Clementine no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças :
"os adultos são esa mistura de tristezas e fobias".
Precisa-se - e com urgência - resgatar as essencialidades da infância; externalizar os medos; falar dos sonhos; buscar realizações...
tornar-nos quem somos!
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